25.5.10

"Lá em casa manda ela, e nela mando eu"

Quem já não ouviu ou disse expressões como "Por trás de um grande homem está uma grande mulher", "Lá em casa manda ela, e nela mando eu" ou "mulher no volante, perigo constante". No nosso dia-a-dia usamos inúmeras expressões deste tipo, sem termos em conta que perpetuam as desigualdades de género no seio da família e na sociedade.

Na primeira sessão de trabalho do Atelier Nacional Sobre a Integração das Questões de Género nas Práticas Relacionadas com o Acesso, Gestão e Posse de Terra e Água, que decorre na Praia, até 27 de Maio, os cerca de 30 participantes, organizados em grupos, foram convidados a lembrar provérbios e ditados sobre homens e mulheres.


Muitas das expressões mencionadas são usadas na língua crioula - "Na poleiro é galo ki ta canta (no poleiro é o galo que canta); homi faca, mudjer matchadu (homem com a faca, a mulher com o machado); Fidju femea bai servi mundo, fidju machu bai servi rei (as filhas servem o mundo, os filhos servem o rei); undi galo sta galinha ka ta canta (Onde está o galo a galinha não canta). Em português, as expressões mais conhecidas e que também foram referidas no atelier são "Mulher no volante, perigo constante; Entre homem e mulher não se mete a colher; Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher".

Analisando estes provérbios, os participantes chegaram à conclusão que não são mais do que uma fotografia da realidade, e demonstram o quanto a desigualdade atinge, principalmente, as mulheres.

A partir deste exercício, o debate girou em torno da definição de género e dos seus conceitos básicos: papéis de género, relações de género, análise de género e gender mainstreaming (integração do género nas políticas).

Valerio Tranchida, da FAO, explicou que, no âmbito da agricultura, embora as mulheres participem nos trabalhos agrícolas, os dados estatísticos não o demonstram. Os técnicos e dirigentes nacionais foram, deste modo, incentivados a compreender as necessidades específicas de homens e mulheres, a fornecer cursos de formação, a responder às necessidades de todos os membros da comunidade rural e a planear e implementar políticas, programas e projectos de desenvolvimento sustentável e equitativo de forma a integrar a abordagem Género na gestão fundiária e dos recursos hídricos.

RVS

Cabo Verde: Governo promete reverter desigualdade na distribuição de terras

O ministro do Ambiente, Desenvolvimento Rural e Recursos Marinhos, José Maria Veiga, defendeu hoje, na Praia, que a melhoria das condições de existência sustentável das populações rurais, com vista à redução da pobreza e insegurança alimentar constitui uma prioridade para o Governo.



José Maria Veiga, que falava na cerimónia de abertura do Atelier Nacional sobre a Integração das Questões de Género nas Práticas Relacionadas com o Acesso, Gestão e Posse de Terra e Água, referia-se, particularmente, à agricultura, sector que, segundo ele, constitui um dos maiores objectivos da política agrícola do país.

“Se os estudos sobre a pobreza em Cabo Verde mostram que a incidência da pobreza é maior no meio rural, onde vive mais de 60 por cento dos pobres, é no seio da população feminina que as desigualdades são mais evidentes”, realça o ministro para quem as mulheres encontram-se em desvantagem em relação ao homem no que se refere à capacidade produtiva.

De acordo com José Maria Veiga, as mulheres ocupam as explorações agrícolas menos produtivas chefiando 50,5 por cento das explorações agrícolas e ocupando 41 por cento das terras de sequeiro (as menos rentáveis).

Neste âmbito, o governante salienta que, apesar dos progressos alcançados em matéria de desenvolvimento dos cabo-verdianos, estudos já elaborados apontam para a persistência das desigualdades entre homens e mulheres.

Por isso, segundo José Maria Veiga, o Governo, por acreditar nesse desiderato, congratula-se com a implementação do projecto inter-regional de “Desenvolvimento das capacidades sobre a integração da dimensão género na análise da gestão dos recursos hídricos e fundiários”, que vem decorrendo em Cabo Verde, Timor-Leste, Moçambique e Angola desde 2008.

“Em Cabo Verde, estudos recentes demonstram que, para reduzir a pobreza em um por cento, a agricultura contribui com três quartos. Os mesmos estudos demonstram que o índice da pobreza terá baixado para 25,5 por cento, ou seja já teremos cumprido os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio nessa matéria”, garante, salientando, por outro lado, que a ambição do Governo é muito mais forte.

O representante da FAO em Cabo Verde, Frans Van de Ven, que discursou também na abertura, recuou no passado para lembrar o atelier regional, organizado em Junho de 2009, na Praia.

“Para FAO este atelier é uma iniciativa muito importante para o reforço das capacidades no que tange à integração das questões de género para a revisão e implementação de políticas, legislação e praticas agrícolas equitativas e sustentáveis relacionadas com o acesso e a gestão da agua e da terra a nível nacional”, disse.

Segundo Frans Van de Ven, as estratégias propostas para uma boa governação da água e da terra estão relacionadas com a vontade e o compromisso políticos, com a adopção de um enfoque transparente e equitativo.

Aliás, ressalta, a garantia de direitos de propriedade iguais para homens e mulheres aumenta as oportunidades económicas e promove o investimento na terra e na produção agrícola, melhorando a segurança alimentar das famílias.

O atelier enquadra-se nas actividades do projecto inter-regional GCP/INT/052/SPA, onde estão incluídos países como Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste. Tem por objectivo o reforço das capacidades dos actores nacionais na integração das questões de género nas políticas e programas relacionados com o desenvolvimento agrícola e rural, nomeadamente nos sectores de água e terra.

Durante três dias, os participantes no encontro irão analisar o Programa de Análise Socio-Económica e de Género (ASEG), a Integração das questões de género na legislação sobre recursos fundiários e hídricos, o manual de rega ASEG, entre outros assuntos.

Inforpress

21.5.10

Cabo Verde: Técnicos e dirigentes nacionais debatem abordagem Género na Gestão da Terra e da Água

Técnicos, dirigentes e consultores nacionais nos domínios de género, recursos fundiários e hídricos participam, de 25 a 27 de Maio, num atelier enquadrado num projecto inter-regional que insere a abordagem Género na Gestão da Terra e da Água.


O Atelier Nacional Sobre a Integração das Questões de Género nas Práticas Relacionadas com o Acesso, Gestão e Posse de Terra e Água, que se realiza no Hotel Trópico, na Praia, é organizado pelo Ministério do Ambiente, do Desenvolvimento Rural e dos Recursos Marinhos, em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O objectivo principal do encontro é reforçar as capacidades dos actores nacionais na integração das questões de género nas políticas e programas relacionados com o desenvolvimento agrícola e rural, nomeadamente nos sectores de água e terra.

Os participantes, nos quais se incluem os elementos que compõem a task-force do projecto e representantes de associações de agricultores das ilhas de Santiago, Fogo, São Nicolau, Santo Antão e São Vicente, entre outros, vão melhorar, por exemplo, as suas capacidades em Análise Socio-Económica de Género e em gestão de conflitos ligados à posse da terra e água.

O atelier enquadra-se nas actividades do projecto inter-regional GCP/INT/052/SPA, intitulado de “Desenvolvimento das Capacidades de Integração da Análise de Género na Gestão de Águas e Terras”. Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste são os países contemplados com este projecto, financiado pela Cooperação Espanhola, e que conta com o apoio técnico da FAO.

Este programa, que arrancou em Fevereiro de 2008, pretende melhorar a segurança dos homens e mulheres no domínio da terra e na gestão dos recursos hídricos e fundiários, através da integração da dimensão género na legislação, nas políticas em geral e nos programas de administração e gestão da terra e da água.

O ministro do Ambiente, do Desenvolvimento Rural e dos Recursos Marinhos, José Maria Veiga, preside a cerimónia de abertura, marcada para as 09 horas, de 25 de Maio, no Hotel Trópico.

14.4.10

Moçambique: Dependência alimentar diminui, mas 55 distritos ainda passam fome, diz primeiro-ministro

Moçambique deverá reduzir a dependência externa em produtos alimentares dentro dos próximos dois anos, com o reforço da “revolução verde”, mas 55 distritos deverão enfrentar fome este ano.

São previsões do primeiro ministro moçambicano, Aires Aly, que hoje na província de Manica, centro do país, instou a população para revolucionar a produção de alimentos e pediu aos líderes comunitários que as suas regiões reduzam os défices alimentares e a fome.

“O nosso trabalho é fundamental, pois com fome todos somos doentes. Não podemos manter a dependência externa de produtos alimentares”, afirmou Aires Aly, que falava na abertura da segunda época da campanha agrícola 2009/10, cuja cerimónias centrais decorreram em Rotanda, província de Manica.

O chefe do governo indicou que a aprovação, esta semana, do Plano Quinquenal do Governo (pelo Parlamento) vai materializar o programa de redução da dependência externa de alimentos, além de criar mecanismos para a aplicação de todas as técnicas na produção agrícola.

No domínio da agricultura, o governo deverá incentivar o conhecimento para o aumento da produtividade, actualmente calculada em cerca de 1,4 toneladas/hectare, contra a média de 3,5 toneladas por hectare alcançado por outros países da África Austral.
O governo reduziu este ano as taxas de combustíveis, energia e aquisição de sementes, como forma de subsidiar a agricultura no país. Em Moçambique, mais da metade de produção agrícola provem do sector familiar.

“Já temos trabalhado para a melhoria da semente, para equacionar a realidade climática do país. Contudo devemos aplicar todos os mecanismos agrícolas existentes (mecanizada, charrua, enxada) para a produção”, disse Aires Aly.

Como forma ainda de impulsionar a produção e a produtividade na segunda época da campanha agrícola o governo promoveu feiras agrícolas, para facilitar a aquisição de semente de cereais e horticulturas aos camponeses. A época agrícola anterior foi afectada por seca e inundações, tendo quase a metade da produção ficado perdida.

“Em nenhuma outra campanha agrícola o governo disponibilizou tanta semente, pois é um dos vectores importantes para se aumentar com a produção”, disse à Agência Lusa Soares Nhaca, ministro da agricultura.

Moçambique tem um défice alimentar de 315000 toneladas de arroz e cerca 250000 de trigo, que constituem a base alimentar da população.

8.4.10

Cabo Verde: FAO apoia arquipélago em programas de reflorestação e captação de água

O Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) vai apoiar Cabo Verde em programas de reflorestação e de captação de água, afirmou o diretor geral da organização, Jaques Diof.



Jaques Diouf terminou quarta feira à noite (7 de Abril) uma visita a Cabo verde, onde, além de reuniões de trabalho com o ministro do Ambiente, Desenvolvimento rural e Recursos Marinhos, foi recebido pelo primeiro ministro e pelo Presidente da República.

Para o dirigente da FAO, a aposta do país deverá centrar-se num programa de reflorestação e num modelo de captação de água que vai servir como primeiro elemento de teste do sistema de rega gota a gota.

“O primeiro programa que vamos aplicar é um programa de reflorestação, de fixação de solo para criar um ambiente favorável para a agricultura. Vamos continuar a trabalhar sobre um modelo de captação de água. Este sistema vai servir como primeiro elemento de teste do sistema gota a gota e que nos permitirão lançar o grande programa de irrigação gota gota no país”.

No entanto, Jacques Diouf considerou que o maior potencial agrícola de Cabo Verde vem do mar que, além da pesca, possibilita o desenvolvimento da aquacultura.
“A nível do mar naturalmente tem a pesca, mas tem também a aquacultura, que hoje em dia fornece entre 50 a 60 por cento o mercado mundial de peixe”, sustentou.

O representante da FAO considerou ainda que Cabo Verde deve aproveitar o desenvolvimento turístico de que vem sendo alvo, com produção local capaz de abastecer este mercado.

A FAO garante que vai continuar a apoiar o Governo cabo-verdiano no desenvolvimento desses projetos, através da assistência técnica, material e na aplicação dos recursos, garantiu Jaques Diouf.

Fonte: LUSA
Foto: FAO/Simone Casetta

26.2.10

Israel: Galillee College apresenta Tecnologia Agrícola e de Irrigação

Tecnologia Agrícola e Irrigação

27 de Maio a 14 de Junho de 2010

Galillee College, Israel.

"Produzir mais, em menos espaço e com pouca água". Este é o grande desafio da agricultura em Israel, principalmente em regiões nas quais água e terra arável são escassas. Foi justamente a necessidade de produzir alimentos com poucos recursos naturais que fez da tecnologia agrícola israelense uma das mais desenvolvidas do mundo, especialmente em irrigação. Há empresas israelenses especializadas em tecnologias e soluções para toda a cadeia agrícola, desde o desenvolvimento de filmes plásticos para estufas, sementes até sistemas de dessalinização da água do mar e soluções para tratamento de água de esgoto para uso em irrigação. O país também é importante exportador de agrotecnologia, principalmente de estufas e de gerenciamento de água em irrigação".

Niza Souza - O Estado de S.Paulo

O Centro Internacional de Treinamento Agrícola no Galillee College tem o prazer de convidá-lo (a) para conhecer as inovações tecnológicas desenvolvidas em Israel na área da agricultura, através do seu Programa "Tecnologia Agrícola e Irrigação", que será realizado de 27 de Maio a 14 de Junho de 2010.

O Galillee College é uma Instituição privada, localizada em Israel, com reputação internacional, capacitada na organização de programas de gestão e liderança, e seminários de capacitação, com duração de três semanas, para profissionais das várias partes do mundo. Entre os programas realizados, o Centro Internacional de Treinamento Agrícola vem treinando profissionais trabalhadores dos setores públicos e privados de países em desenvolvimento desde 1987, capacitando profissionais e técnicos.

O programa será realizado no centro de estudos do Galillee College, e os participantes terão a oportunidade de desfrutar de passeios turísticos aos locais religiosos e históricos do país, durante os fins de semana.

A Taxa de Custos de Estadia é de € 2865 (dois mil oitocentos e sessenta e cinco euros) cobrirá os seguintes itens: Transporte do aeroporto ao centro de estudos (ida e volta), Hospedagem de duas pessoas por quarto (ocupação dupla), Refeições completas, Seguro Saúde, Serviço de Lavanderia, Salas de Computadores, Atividades Sociais, Passeios Turísticos, incluindo guia em português, refeições e transporte.

Bolsas acadêmicas, (materiais didáticos, visitas de estudos e honorários dos palestrantes) serão concedidas aos candidatos qualificados.

Promoção para Pagamentos Antecipados

Temos o enorme prazer de oferecer um desconto especial de € 110 euros ao candidato que haja completado seu processo de matrícula e efetuado o pagamento da taxa de custos de estadia até o dia 25 de Março de 2010. O valor final após o desconto será de € 2755 euros. (ocupação dupla).


Neste mesmo período estaremos realizando também os Programas de:

* Gestão de Recursos Humanos e Formação de Quadros

* Gestão e Desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas.

* Seminário Internacional de Segurança Nacional em Português de 01 a 12 de Julho de 2010


Para participar, recomendar candidatos qualificados, ou adquirir formulários de inscrição, não hesite em contactar Sara Lederman por e-mail: slederman@galilcol.ac.il ou pelo telefone: 972-4-6428888.

20.10.09

Visita a Lagoa, comunidade exemplar no uso da micro-irrigação

Entre vales de difícil acesso, brotam do chão árvores de fruto, legumes e plantas de toda a espécie. Papaia, limão, abacate, figos, cenoura, tomate, cebola, repolho, malagueta, alface, pepino, e até purgueira são alguns dos produtos cultivados nos socalcos de Lagoa, no concelho de São Domingos.

O ar ali é mais fresco e predomina a paisagem verde, em contraste com o tom terra que, quase todo o ano, é a cor de Cabo Verde. Lagoa é, sem mais nem menos, pastoril e bucólica. Uma mulher desponta pela estrada de terra, vinda de Sul, com um balde de água à cabeça. As raparigas mais novas juntam-se em volta do depósito, cada uma com o seu balde pronto a encher. Um casal de jovens ouve um rádio a pilhas, num ermo com vista para o vale. Uma rapariga apanha malagueta.

Os caminhos estão imaculadamente limpos, as parcelas de terra escrupulosamente divididas e delimitadas, e a água é aproveitada até à última gota.

Os produtores de Lagoa foram contemplados com um projecto de agricultura irrigada e fazem a água chegar aos socalcos usando a última tecnologia de micro-irrigação e de rega gota a gota. O projecto é da FAO, com financiamento da Cooperação Espanhola. As parcelas distribuídas aos produtores são privadas e muitas delas geridas por mulheres.

O projecto facilitou a construção dos reservatórios de água e dos cabeçais de rega e a aquisição e montagem dos kits de micro-irrigação. A água é armazenada em grandes reservatórios e transportada através de tubos para as parcelas. A gravidade desempenha um papel importante para fazer movimentar a água, entre as diferentes partes deste vale profundo. O sistema de rega gota a gota goteja cerca de um litro de água por hora para as parcelas, como explica um dos produtores, Nho Toti.

O acesso dos agricultores à água é, por enquanto, gratuito, mas esta é uma situação excepcional em Cabo Verde, garantiu o delegado do Ministério.

Aproveitando que tão exemplar experiência estava tão perto da Praia, o grupo de participantes do atelier decidiu visitar a comunidade no último dia do encontro, acompanhado do representante da FAO em Cabo Verde, do Delegado do MADRRM em S. Domingos e do representante da cooperação Espanhola em Cabo Verde.

Foi uma experiência muito enriquecedora e divertida para todos nós, e aqui a recordamos em alguns momentos (clique nas imagens, se quiser aumentar):

















A vida bucólica em Lagoa











17.10.09

Cabo Verde importa 80% dos alimentos que consome

Cabo Verde importa 80 por cento dos alimentos que consome, dispõe apenas de 10 por cento de terras com vocação agrícola e as condições climáticas constituem uma ameaça permanente a agricultura, alerta um estudo da ONU.

O estudo, encomendado pelo Fundo das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), enquadrado no Dia Mundial da Alimentação, refere também que o nível de produção alimentar é “estruturalmente deficitário” e a insegurança alimentar é uma das principais ameaças à pobreza.

O documento, intitulado “Análise da Situação do Sector da Alimentação e da Agricultura Face ao Aumento dos Preços em Cabo Verde”, foi apresentado na Cidade da Praia pelo representante da FAO em Cabo Verde.

Franz Van de Ven que considerou que, apesar de tudo, as medidas tomadas pelo Governo para abrandar o aumento dos preços dos produtos alimentares foram “bastante positivas”.“O relatório aponta as políticas bem implementadas pelo Governo. Houve uma reacção em tempo oportuno, o que significa que as consequências do aumento dos preços foram muito menos do que, por exemplo, noutros países da sub-região”, disse.

Entre os vários programas de apoio da FAO ao arquipélago, Van de Ven apontou o que beneficia as famílias mais vulneráveis e mais afectadas pelo aumento dos preços, ao serem-lhes distribuídas sementes agrícolas, garantindo, paralelamente, que a organização vai continuar a apoiar o programa de apoio à segurança alimentar.

Por seu lado, o ministro do Ambiente, Desenvolvimento Rural e Recursos Marinhos de Cabo Verde, José Maria Veiga, defendeu que o executivo tomou medidas com a finalidade de atenuar o impacto da crise no seio da população, sobretudo as mais vulneráveis do ponto de vista alimentar.

A aprovação de uma medida legislativa que visa reduzir ou isentar os cereais e alguns bens relacionados com a alimentação animal, o direito de importação e do IVA e o aumento das pensões sociais de 2.150 para 3.500 escudos mês (de 19,49 para 31,74 euros) foram algumas das medidas adoptadas, disse José Maria Veiga.

O ministro cabo-verdiano lembrou que, entre 2006 e 2008, em que a crise esteve no pico, o governo implementou um programa de desenvolvimento agrícola, integrado em novos métodos de utilização da água, com a introdução de novas tecnologias agrícolas, como o sistema de rega gota-a-gota e da hidroponia.

Fonte: Lusa

10.9.09

Cabo Verde: “Abordagem de Género não é um instrumento de enfeite, mas de planificação”

Entrevista com Alayde Diaz, Técnica superior da Direcção Geral do Planeamento, Orçamento e Gestão, do Ministério do Ambiente, Recursos Marinhos e Desenvolvimento Rural.
Cabo Verde tem tido muitos ganhos na integração da abordagem de género em diferentes sectores do país. Mas na agricultura a situação da mulher ainda é “muito difícil”, conta Alayde Diaz do MADRRM. As mulheres têm menos acesso às terras de regadio do que os homens e as famílias chefiadas por elas têm mais insegurança alimentar. O Ministério tem procurado inverter essa tendência,mas a técnica superior da Direcção Geral do Planeamento, Orçamento e Gestão acredita que vai levar muito tempo para se sentirem os resultados. Alayde Diaz considera que, antes de mais, o próprio Ministério deve abraçar a abordagem de gênero na sua planificação, identificando actividades que ponham fim aos desiquilíbrios.

Qual a situação de Cabo Verde em termos da integração da questão Género na gestao fundiária e da água?

No geral, temos muitos ganhos na questão da integração na abordagem de género no país, principalmente a nível do sector da educação. Há uma certa paridade a nível do ensino básico. A nível do ensino secundário, há alguma diferença: as raparigas estão em melhor posição que os rapazes, temos mais raparigas e em superioridade em relação ao sucesso escolar.
A legislação é a favor da equidade de género. Há algumas situações na legislação que são mesmo de discriminação positiva. A nível da participação ainda há muita coisa a fazer. As mulheres têm uma forte participação a nível doméstico e que condiciona a participação a nível público.
Alguns estudos e inquéritos feitos no país revelam que as mulheres são mais controladas, por exemplo, pelos maridos nas suas relações sociais. Elas têm alguma limitação a nível do acesso aos recursos financeiros e na gestão dos recursos financeiros no lar. Não há reconhecimento do poder por parte do companheiro para elas tomarem a decisão sobre a saúde, as compras, as visitas aos familiares. Tudo isso já condiciona a participação delas a nível público. Isto vê-se, por exemplo, na proporção de membros do Parlamento. Actualmente, temos na Assembleia Nacional 79 por cento parlamentares do sexo masculino.
Muito embora tenhamos tido alguns ganhos, entre 2003 e 2008, em termos de participação da mulher no espaço público. A nível do poder legislativo passamos de 11% para 21%, no poder executivo, nas chefias dos Ministérios, passamos de 20% para 36%. No campo judicial, a proporção de mulheres procuradoras passou de 15 para 21 por cento.

Na nossa visita de campo, no último dia do atelier, encontramos uma agricultora que disse que, em casa, ela e o marido ganham ambos um salário, mas só ela arca com todas as despesas domésticas e não sabe sequer o que o marido faz com o seu dinheiro. Isto reflecte a situação das mulheres no mundo rural?

Reflecte aquilo que acabamos de falar sobre a gestão dos recursos financeiros. Os dois trabalham e moram na mesma casa. Mas é só a mulher que fica responsável pelas despesas familiares.
De facto, em Cabo Verde ainda não há comparticipação das responsabilidades dentro do lar. No meio doméstico, o homem controla, apesar de serem casados. No bolo do rendimento, a mulher controla aquilo que leva para casa, mas já não controla o dinheiro do marido e, por acréscimo, é a mulher que se responsabiliza por todas as despesas do lar, não só a dos filhos como as do marido.
A situação da mulher na agricultura é um bocado difícil. Apesar de existir, em número, mais mulheres chefes de exploração, elas estão em desvantagem em termos de terras de regadio, quer no número de explorações, quer no tamanho da área explorada. No sequeiro, mulheres e homens têm o mesmo número de terras, mas mesmo assim área dos homens ainda é superior.
Porque é que há mais homens a trabalhar no regadio? Tem mais vantagens?
O sequeiro é aquele tipo de agricultura que usa a água proveniente da chuva mas da chuva que cai naquele momento. O sequeiro é a forma de exploração da terra onde se recorre a água já acumulada, proveniente das chuvas, que pode ser encontrada nos poços, nos tanques ou nos grandes depósitos.

Ou seja, o regadio é mais previsível? O sequeiro depende mais do clima?

Depende mais do clima e da quantidade de chuva que cai. O regadio já implica a pessoa fazer outros investimentos, por exemplo, ser dona de um poço, um depósito, um tanque, uma moto-bomba. O regadio está ligado, sobretudo, com o acesso à água. Requer maiores investimentos, maior poder econômico e os homens é que têm esse maior poder econômico.

É também mais lucrativo?

Sim. A agricultura de regadio é mais virada para a comercialização, enquanto o sequeiro é mais virado para o auto-consumo, não se obtém rendimentos.
O Ministério está a fazer alguma coisa para inverter essa tendência? Atrair as mulheres mais para o regadio, ou seja, proporcionar-lhes mais rendimento?
O Ministério tem vários projectos com uma abordagem da integração de gênero.A terra, a água o trabalho em sequeiro e, sobretudo, em regadio também depende da posse de terra e do acesso à água, e são questões ainda muito complexas e que vão durar algum tempo a ter resultado. O facto de o país ter assinado este projecto com a FAO já mostra alguma vontade de resolver esta questão. O Ministério e o país em geral tem consciência das dificuldades que as mulheres enfrentam no sector da agricultura.

O que é preciso mudar, principalmente?
Os principal desafio é entender que Género não é apenas uma questão das mulheres. É fazer com que quem estiver em desequilíbrio fique numa posição mais equilibrada, seja em relação ao homem ou à mulher.
Entendendo essa perspectiva, teríamos um segundo desafio: fazer com que a planificação do Ministério seja assente na integração da abordagem de gênero para que, no fim da implementação dos projectos, se consiga ver os ganhos obtidos. Identificando bem quem está em desequilíbrio podemos identificar que actividades devemos realizar para resolver esse desequilíbrio. Colocando essas pessoas em actividades direccionadas, vamos ter impactos e resultados direccionados também.
O maior desafio é esse: que a abordagem de gênero não seja apenas um instrumento de enfeite, mas sim um instrumento de planificação, que permita melhorar quer a situação da mulher, quer a do homem. No caso da agricultura precisamos melhorar, de facto, a situação da mulher.

Cabo Verde tem dados estatísticos desagregados por sexo. Os dados mostram realmente essa desigualdade no mundo rural?

Cabo Verde tem dados desagregados por sexo em quase todas as áreas: na saúde, na educação, do sector da justiça, indicadores que nos revelam toda a participação do homem e da mulher.
Na agricultura também temos dados desagregados por sexo. No primeiro Recenseamento Agrícola de 1988 o Ministério, juntamente com o ICIEG, já fez uma análise dos dados na perspectiva da mulher. Na altura tínhamos aquela abordagem da mulher no desenvolvimento. Com o segundo recenseamento, o Ministério e o ICIEG analisaram os dados e traçaram um perfil do Género na agricultura, mostrando- nos situações díspares no acesso aos recursos, quer à água, à terra e aos meios de produção.
O trabalho da task-force, como está a correr?
Eu penso que deve ser considerado como um ganho. Conseguimos pôr pessoas de diferentes sectores, relacionados com a problemática da água, terra e da questão de gênero, quase há mais de um ano, a trabalhar regularmente, a analisar os produtos que resultam das actividades do projecto. Discutimos as consultorias que foram realizadas, damos orientações para a melhoria. O principal ganho deste projecto é a constituição e o trabalho da task-force.