20.9.07

Atelier iniciou esta manhã na Praia com todos os países da CPLP representados

O atelier de validação do "Programa de Capacitação no Domínio da Terra dos Países Membros da CPLP" arrancou esta manhã, na sala de conferências do Ministério das Finanças, na cidade da Praia, em Cabo Verde.

Todos os países da CPLP estão representados no encontro, e também os representantes da FAO e ainda a CPLP, que, em substituição do secretário-executivo Embaixador Luís Fonseca, marcou presença através da Embaixadora do Brasil em Cabo Verde.

Aqui fica a memória, em imagens, da abertura deste primeiro encontro, que pretende validar um acordo inédito, no domínio das terras, entre a FAO e o secretariado-executivo da CPLP, envolvendo todos os países lusófonos.

























Luís Fonseca: “Programa deve merecer toda atenção dos Estados-membros”

O Secretário Executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa considera que o Programa de Capacitação no Domínio da Terra dos Países Membros da CPLP "pela sua importância no domínio da regulamentação fundiária, no âmbito da CPLP, deve merecer toda a atenção dos Estados-membros”.



Para o Embaixador Luís Fonseca esta é “a primeira iniciativa de grande alcance realizada em parceria com a FAO".

Segundo explica o site da CPLP, que avança com estas declarações do secretário-executivo, a 1ª fase do Programa visa formular projectos de capacitação técnica em aspectos relacionados com a terra. O término da 1ª fase, em Junho passado, é agora prosseguido pelo lançamento da 2ª fase – mobilização de assistência técnica e recursos financeiros para a implementação do Programa.

No arranque do Atelier esta manhã o secretário-executivo da CPLP, que se encontra em Nova Iorque para participar na Assembleia-Geral das Nações Unidas, foi representado pela Embaixadora do Brasil em Cabo Verde, Maria Dulce Silva Barros.

18.9.07

Director-geral da FAO e secretário-executivo da CPLP encontram-se em Lisboa

FAO discute com Portugal possível abertura de escritório em Lisboa


O Secretário Executivo (SE) da CPLP, embaixador Luís Fonseca, recebeu o Director-Geral da FAO, Jacques Diouf, na sede da Comunidade. Durante o encontro foram debatidos diversos assuntos em matéria de cooperação entre a CPLP e este organismo do sistema das Nações Unidas. Salienta-se a vontade, demonstrada mutuamente, de estreitar as actividades conjuntas para o combate à fome e para a promoção do desenvolvimento rural.

Para atingir este objectivo, o Secretariado Executivo da CPLP vai identificar no Plano Indicativo de Cooperação os projectos que podem ser alvo de uma cooperação mais próxima com a FAO.
O SE CPLP, embaixador Luís Fonseca, acolheu com agrado a sugestão efectuada pelo DG da FAO, Jacques Diouf, de abertura de uma delegação desta organização em Lisboa. Quanto a esta possibilidade, o embaixador Luís Fonseca salientou que “a eventual abertura de uma Delegação da FAO em Portugal, no quadro do desenvolvimento da cooperação entre aquela organização e a CPLP, poderá contribuir para a construção de uma base de dados conjunta CPLP/FAO sobre os países de língua portuguesa, com respeito a projectos de investimento e cooperação técnica em execução e programados bem como para o mapeamento das oportunidades de expansão do programa de terreno da CPLP e FAO”.

Perspectivando-se o reforço da cooperação multilateral intra CPLP, foi efectuado um balanço da cooperação em curso entre a CPLP e FAO".

O Acordo de Cooperação entre a CPLP e a FAO foi estabelecido por troca de notas, em 21/09/99 e visa a participação, na qualidade de Observador e por convite, nas conferências e reuniões organizadas por uma ou outra das organizações, sobre questões de interesse comum; troca de informações e de documentação sobre questões de interesse comum; consulta recíproca sobre a planificação e execução de programas técnicos que apresentem interesse para as duas organizações; cooperação em todos os domínios no âmbito dos mandatos de ambas as organizações e actividades comuns em sectores a determinar.

Para além dos convites para que as duas Organizações participem nas reuniões mais relevantes de uma e de outra, a única acção concreta de cooperação existente, até ao momento, materializa-se através de um Projecto de Cooperação Técnica para a formulação de um Programa de Capacitação Regional sobre o Regime de Propriedade, Ordenamento do Território e Aspectos Legais Associados, assinado em 03/03/2006, tratando-se de um acordo de cooperação específico e com um carácter regional dado que cobrirá todos os Estados-membros (EM) da CPLP, excepto Portugal.

O Projecto está já na sua fase final, tendo-se deslocado à sede da CPLP, em Junho, uma delegação técnica para analisar, com o Comité de Concertação Permanente, a condução das actividades de conclusão do projecto – nomeadamente a organização do Seminário Final para a apresentação da Proposta de Programa – e de lançamento de uma nova fase (mobilização de assistência técnica e recursos financeiros). Brevemente, terá lugar em Cabo Verde, o Seminário de validação do Programa.

A CPLP espera poder continuar a contar com a colaboração da FAO na fase de implementação do Programa de Capacitação Regional que sair do mencionado Seminário.

Perspectivas (1)

Poderão ser exploradas com a FAO as seguintes áreas de actuação, tendo sempre em mente a luta contra a pobreza a par do desenvolvimento sustentado dos EM:

- Micro-financiamento Agrário (formação e capacitação dos beneficiários);

- Identificação de fontes para o fortalecimento da capacidade técnica e financeira para a promoção de políticas agrárias, programas e projectos de investimento e de cooperação técnica, nomeadamente nos sectores agro-silvo-pastoril e agro-alimentar dos EM;

- Extensão da Declaração de Intenções entre os Governo brasileiro, angolano, cabo–verdiano, e moçambicano e a FAO, para a identificação, elaboração e implementação de projectos com base na experiência do Programa Nacional de Alimentação Escolar Brasileiro aos Estados-membro que assim o desejarem.

(1) Baseadas nos resultados de 2 das 3 Reuniões dos Ministros da Agricultura da CPLP (Lisboa, Novembro 1996 e Bissau, Maio 2002) e Seminário sobre Micro-financiamento Agrário e Terras nos países da CPLP (Moçambique, Novembro 2002).

FONTE: cplp.org

Agenda do "Atelier de validação do Programa de Capacitação no Domínio da Terra dos Países Membros da CPLP”

Local: Sala de Conferências do Ministério das Finanças, Praia, Cabo Verde

Primeiro Dia (20/09/07)

9H00- 09H30 Recepção e inscrição dos participantes

9H30 – 10H00 Cerimónia de Abertura co-presidida pela Sua. Excia. Ministra do Ambiente e Agricultura, Secretário Executivo da CPLP, Representante da FAO

10:00 – 10H20 Apresentação do Historial e antecedentes políticos do TCP/INT/3001 – Formulação de um Programa de Capacitação Regional sobre o Regime de Propriedade e Gestão da Terra e aspectos legais associados – Dr. Paolo Groppo

10H20 – 10H30 Sessão de esclarecimentos

10:30 – 10H45 Pause café

10:45 -11H00 Apresentação do TCP/INT/3001 – Formulação de um Programa de Capacitação Regional sobre o Regime de Propriedade e Gestão da Terra e aspectos legais associados – Luísa Borges

11:00 – 12H45 Apresentação do Relatórios dos países *

Angola
Brasil
Cabo Verde
Guiné – Bissau
Moçambique
São Tomé
Timor – Leste (opcional)
* Apresentação 15 mn para cada país


12:45 - 14H00 Almoço (Servido no local do encontro)

14H00 - 14H40 Apresentação da Proposta do Programa de Capacitação no domínio da Terra dos países membros da CPLP – Dr. Paolo Groppo

14H40 - 16H00 Sessão de esclarecimentos e debate

16H00 Encerramento dos trabalhos

...........................................................................

Segundo Dia (21.09.07)

8H30 - 09H00 Acolhimento dos participantes

9H00 - 09H40 Continuação dos Trabalhos

9H40 - 10H15 Apresentação GCP/INT /052/SPA “Desenvolvimento das Capacidades sobre a integração da Dimensão Género na Analise da Gestão dos Recursos Hídricos e Fundiária”- Dra. Ilaria Sisto

10H15 -10H30 Pausa Café

10H30 - 10H45 Sessão de esclarecimentos

10H45 -11H30 Reposição das contribuições para Programa de Capacitação no Domínio da Terra dos Países Membros da CPLP- Dr. Paolo Groppo e Luísa Borges

11H30 -12H15 Leitura do relatório

12H15 -13H00 Cerimónia de Encerramento

13H00 - 14H00
Almoço (Servido no local do encontro)

13.9.07

Mensagens chegam por email felicitando criação do projecto

Reprodzimos aqui algumas das mensagens que deixaram no nosso email sobre a criação de um projecto de capacitação no sector fundiário dos países da CPLP.

Bom dia,
Caros participantes,
A Direcção Geral de Geografia e Cadastro da Guiné
Bissau felicita à todos os participantes e
interessados pela questão fundiaria à nivel do CPLP,
em particular a FAO pela forma pedagogica e
participativa que soube congregar na mesma mesa os
falantes da lingua portuguesa para debaterem e
proporem soluções que lhes são comuns à nivel
fundiario. Nasce uma oportunidade singular à nivel da
CPLP em parceria com a FAO. Tenho certeza que virão
mais parceiros a juntar-se a FAO.

Até a Praia.
Calorosamente,

Braima Biai


Ao Comitê de organizção do Atelier da CPLP sobre questão fundiária - Cabo verde


Obrigada pelas informações e considero da maior importância o evento em pauta.
Como consultora da FAO para as áreas de Terra e Desenvolvimento Institucional, mais especificamente atuando em atividades de Capacitação e Inventário Institucional, tenho grande interesse em participar. Coloco-me à disposição e certamente estarei acessando o Blog disponibilizado.

Atenciosamente, Sevy Madureira


Boa Tarde,

Melhores e respeitosos cumprimentos da OCADEC Angola.

A OCADEC vem por intermédio desta agradece pela oportunidade e o interesse da FAO e outras instituições têm em ver os direitos fundiários para as populações rurais assegurados. Qual a possibilidade de a OCADEC Angola poder participar neste tão importante evento?

Atenciosamente,
Gaspar Daniel
Administrador
OCADEC

Ministra da Agricultura de Cabo Verde destaca "vontade política comum"

CPLP une-se à FAO para trabalhar questões fundiárias

A ministra do Ambiente e Agricultura de Cabo Verde elogia a "vontade política comum" dos Estados-membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa na implementação de uma estratégia consensual para as questões da terra. "A questão fundiária é importante para o desenvolvimento de todos os países lusófonos, nomeadamente no campo da segurança alimentar e no crescimento económico", justifica a governante.



Madalena Neves vai presidir o atelier de validação do " Programa de Capacitação Regional sobre o Regime de Propriedade Territorial, Gestão da Terra e aspectos legais", dirigido aos países-membros da CPLP (referência TCP/INT/3103), que se realiza de 20 a 21 de Setembro, na cidade da Praia, em Cabo Verde. O arquipélago foi escolhido como sede formal do projecto e da sua primeira actividade com representantes dos oito países lusófonos "retribuindo" o facto de a ministra cabo-verdiana ter colocado a iniciativa regional sobre a terra de novo na agenda, durante o Encontro dos Ministros da Agricultura dos Países Lusófonos (Roma, 21 de Novembro de 2005).

Na altura, Madalena Neves pediu aos Oito que relançassem a iniciativa – que já tinha germinado no seminário sobre Micro-Financiamento Agrário e Terras, realizado em Maputo, a 6 e 7 de Novembro de 2002 – de formulação de um Programa Regional de Capacitação no domínio fundiário e nas suas diversas componentes, elaborado com o apoio da Direcção de Desenvolvimento Rural da FAO. A titular da pasta da Agricultura em Cabo Verde sugeriu, no discurso de abertura em Roma, que o seu país acolhesse o evento "pela sua localização geográfica privilegiada, situando-se entre os três continentes e por uma série de motivos que manifestam um ambiente favorável para o albergue, designadamente a instalação da Universidade de Cabo Verde".

Agora que está formulado o projecto e prestes a arrancar o atelier de validação e capacitação, Madalena Neves louva também "o forte engajamento do Secretariado-Executivo da CPLP", que, findo o encontro deste mês na Praia, verá oficializado um acordo inédito de cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO.

"O papel da FAO foi determinante em todo este processo porque apoiou técnica e financeiramente a elaboração do programa", afirma. Este organismo das Nações Unidas tem sido "desde a independência de Cabo Verde um importante parceiro estratégico", auxiliando, nos últimos anos, vários projectos como o Plano Estratégico da Agricultura, os estudos para as Bacias Hidrográficas, a elaboração de planos de acção de desenvolvimento agrícola por ilhas, programas de florestação e prevenção de incêndios e um projecto de género e desenvolvimento rural, enumera a ministra.

Também nos outros países da CPLP, a FAO está presente e surge, neste programa comum, como uma entidade facilitadora de todo o processo. É que, como explica Madalena Neves, uma das fraquezas do sector fundiário nos países com língua oficial portuguesa é a débil capacidade institucional e a gestão dos recursos humanos. Também a legislação do sector fica aquém das necessidades de cada país, assim como a formação de pessoal, que, na perspectiva da governante cabo-verdiana, é um aspecto "essencial para a implementação das políticas de cada um dos governos". "O sector fundiário precisa de pessoas capacitadas para se desenvolver", reforça.

Apesar de haver muitas áreas em que a capacitação é vital, Brasil e Portugal estão, neste ponto e noutros que se prendem com a segurança fundiária, um passo mais à frente dos restantes países da CPLP. Uma "vantagem", considera Madalena Neves, "porque estes países poderão transmitir o seu 'know-how' e experiência" às nações lusófonas africanas e à timorense.

Cabo Verde condicionado devido à desertificação
Referindo-se à situação do seu país em particular, Madalena Neves explica que Cabo Verde – que tem nove ilhas habitadas e uma desabitada, e cerca de 450 mil habitantes – está condicionado por certas peculiaridades, próprias da sua condição insular, que afectam o desenvolvimento rural e, por consequência, o desenvolvimento económico.

"Estamos inseridos no Sahel, ou seja, sofremos os efeitos da seca e da desertificação. Por exemplo, este ano agrícola de 2007 só começou em Setembro, porque antes não tivemos chuvas", refere. A vulnerabilidade aos efeitos das mudanças climáticas no arquipélago assenta, sobretudo, "na segurança alimentar, no acesso das populações ao rendimento e na modernização e transformação do sector da agricultura", caracteriza a ministra que tutela ainda o sector do Ambiente em Cabo Verde.

Neste quadro, o Governo cabo-verdiano tem estado a trabalhar "para mitigar, em tempo útil, os efeitos da seca". "Já aprovamos a Lei dos Solos e fica agora o desafio da implementação da lei. Trata-se de todo um sistema institucional que se deve consolidar", adianta Madalena Neves.

Para a ministra, é fulcral que se "garanta em Cabo Verde o acesso à terra" e, nesse sentido, destaca o trabalho que tem vindo a ser feito na recolha de dados para o recenseamento agrícola e o projecto de género e desenvolvimento rural, que se enquadra no Plano Nacional de Luta Contra a Pobreza.

10.9.07

Notícias de Angola sobre Desenvolvimento Rural

Instituto Agrário capacita responsáveis provinciais

23-08-2007

Responsáveis e técnicos do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) das províncias de Malanje e do Kwanza Norte estão a ser capacitados em novas técnicas de trabalho, numa formação que decorre desde hoje na província do Uíge.

Em declarações hoje (quinta-feira) à Angop, em Luanda, o chefe do Departamento de Coordenação e Supervisão do IDA, Miguel Pereira, disse que participam da formação, até sexta-feira, chefes locais do IDA, das Estações de Desenvolvimento Agrícola (Eda) e supervisores.

Explicou que durante a acção formativa serão ministradas matérias como "metodologia de distribuição de instrumentos de trabalho, sementes e fertilizantes", "metodologia de organização de assistência técnica aos produtores" e "estado da preparação do ano agrícola 2007/2008".

Os participantes serão ainda capacitados em assuntos como "sistema de monitoria das actividades agrícolas", "recolha, processamento, transmissão e disseminação da informação e dados sobre a actividade agro-pecuária", "preparação de terras, áreas semeadas e produção".

O responsável explicou que a capacitação dos quadros provinciais faz parte de um plano de realização de encontros metodológicos, no âmbito do Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural, iniciado em 2005, e do fomento da actividade agrícola.

Os próximos encontros metodológicos realizam-se em Setembro nas províncias do Huambo, Bengo, Luanda Sul e Cabinda, que contarão com a participação de responsáveis do Bié, Kuando Kubango, Zaire, Luanda, Lunda Norte e Moxico.

Os encontros metodológicos iniciaram em Luanda, a três de Agosto último, e terminam em Setembro de 2007.

Assinado acordo para implementação de programa de apoio à mulher rural

24-08-2007

Um protocolo para a implementação de um Programa de Apoio à Mulher Rural e da Periferia (Pamurp), com instrumentos de trabalho, foi assinado este mês, em Luanda, entre o Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural (Minader) e o Comité Nacional para a Promoção da Mulher Rural (Comur), soube hoje (sexta-feira) a Angop.

Segundo uma nota do Comur, o documento rubricado prende-se com a estratégia de execução do programa de Apoio à Mulher Rural e da Periferia, de iniciativa presidencial e sob responsabilidade do Minader, enquadrado na estratégia geral de desenvolvimento rural do país e combate à pobreza.

A estratégia geral de desenvolvimento rural do país e de combate à pobreza tem como pilares os programas de Extensão e Desenvolvimento Rural (PEDR), de Desenvolvimento Comunitário (PDC) e o Pamur.

Além da vertente produção agro-pecuária, estes programas visam dotar as comunidades rurais de capacidade produtiva para garantir a sua auto-suficiência alimentar.

Subescreveram o protocolo o director-geral do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Marcos Nhunga, e a vice-presidente do Comur, Joana Lina.

Fonte: ANGOP

7.9.07

Quilombolas ganham voz no campo

Com força crescente e amparados pela lei, remanescentes de quilombos lutam para reaver terra dos antepassados

Por: Roldão Arruda, "O Estado de S. Paulo", Brasil

24/12/2006

Foto: Muratuba, Brasil (Credit: Rita Vaz da Silva)

Depois dos sem-terra, dos povos indígenas e dos atingidos por barragens, um novo grupo ergue a voz em busca de direitos sobre a terra, aumentando os focos de tensão na zona rural. Agora são os quilombolas - nome dado aos remanescentes de antigos quilombos, constituídos por comunidades negras durante o período da escravidão e também depois que o regime escravocrata foi abolido.

O último atrito ocorreu na quarta-feira, quando 32 famílias quilombolas da comunidade de Tracoateua, no Pará, derrubaram uma torre de transmissão de energia elétrica erguida pela Companhia Vale do Rio Doce. Exigiam compensações pela construção de um mineroduto.

Em levantamento recém-concluído pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) verificou-se que estão em andamento 463 processos nos quais os quilombolas cobram o reconhecimento legal das terras que ocupam. Na maior parte dos casos também reivindicam a devolução de áreas ao redor, que teriam pertencido aos seus antepassados. Trata-se de uma quantidade expressiva de pedidos, cuja execução implica na desapropriação de terras em diversos Estados. Mas mesmo assim ela sinaliza apenas parte do problema.

Ninguém sabe ao certo quantos quilombos existem no País, mas é possível ter uma idéia a partir de um outro levantamento, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), encarregada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de coordenar o projeto Brasil Quilombola. “Pela nossa base de dados, são 3.250 comunidades quilombolas, com cerca de 2,5 milhões de pessoas”, diz Carlos Trindade Santos, da Subsecretaria de Políticas para as Comunidades Tradicionais.

Na maior parte dos casos são comunidades pobres, com baixo grau de instrução, pouco poder de pressão e que sobrevivem com o apoio do assistencialismo. A novidade é que estão fortalecendo as articulações entre elas e com outros movimentos, para ganhar força política.

SEM-TERRA

Ao participar, dias atrás, de um encontro de movimentos sociais em São Paulo, o quilombola Antônio dos Santos, da Coordenação dos Remanescentes de Quilombos, afirmou: “O Brasil tem muitas terras, guardadas por poucas pessoas. Estamos organizando os quilombolas e procurando nos juntar com os índios e os sem-terra para mudar isso. ” Santos mora no Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba, no litoral paulista. Esse nome é bastante conhecido na comunidade por ter sido o primeiro quilombo beneficiado com um decreto de desapropriação de terras por interesse social.

Há 43 anos seus moradores disputavam com uma imobiliária os direitos sobre uma área de 210 hectares, de frente para o mar e dentro da Mata Atlântica. Em setembro, Lula pôs fim à disputa com um decreto de desapropriação da área, que acaba de ser devolvida às 53 famílias.

Ao todo, o pessoal da Caçandoca reivindica 890 hectares no litoral. Mas a outra parte da área ainda está sob disputa.

O direito dos quilombolas ao território que ocupam foi assegurado pela Constituição de 1988, no artigo 68 das Disposições Constitucionais Transitórias. Mas foi só em 2003 que Lula, cumprindo promessa de campanha, regulamentou a lei.

Por meio do Decreto 4.887, ele definiu como devem ser os procedimentos para identificação, reconhecimento e titulação das terras. Coube ao Incra conceder o título de propriedade.

A mudança tende a acelerar os processos de legalização das terras dos quilombos. Em 2004, foram concedidos 2 títulos de propriedade; em 2005, saíram 4; e neste ano, segundo o Incra, 14. São todos títulos de propriedade coletiva, ou seja, para a comunidade, não para as famílias, como na reforma agrária.

Nestes três anos, o volume de terras tituladas já soma 28.725 hectares, para 1.947 famílias. Parece bastante, se comparado a períodos anteriores, mas, por outro lado, também parece uma parcela ínfima diante do que se reivindica. É difícil definir quanta terra será preciso para atender à demanda - depois de reconhecidos, os remanescentes ainda podem alegar que as terras vizinhas eram ocupadas por seus antepassados. Se estudos técnicos e científicos confirmarem, poderá ser requerida a retomada das terras.

Em Goiás, o Quilombo do Calunga, o maior do País, com 1.200 famílias, reivindica 243 mil hectares, acendendo focos de tensão. Em Conceição da Barra, Espírito Santo, outras 1.200 famílias disputam com a Aracruz, produtora de celulose, uma área de 60 mil hectares.

Há tensão em Nossa Senhora do Livramento, Goiás, onde fazendeiros contestam a concessão de 18 mil hectares ao Quilombo Mata-Cavalo. No Rio, na Restinga da Marambaia, quilombolas brigam na Justiça por uma área de preservação na qual a Marinha construiu uma base.

O PFL vem contestando a constitucionalidade do Decreto 4.887. Do outro lado, os quilombolas tentam se organizar para acelerar as desapropriações.

4.9.07

Livro explica reforma agrária e aborda conflitos rurais; leia capítulo

Fonte: Folha Online, Brasil

Publicado a 23 de Abril de 2007

Periodicamente, o Brasil é palco de invasões de terra, protestos, que alcançam projeção internacional em torno da questão agrária. O país viveu mais um "Abril Vermelho", quando protestos lembraram o massacre ocorrido em Eldorado dos Carajás, no Estado do Pará, em 17 de abril de 1996, quando 19 sem-terra foram mortos.

A cada ano, mais um plano fundiário promete mudar a situação e não apenas sem-terra protagonizam tais histórias, mas também índios, quilombolas e minorias que querem terras.

O livro "A Reforma Agrária", da Publifolha resgata os principais aspectos de uma das questões mais complexas da história política brasileira. Leia abaixo capítulo do livro.

Com uma abordagem atual, a obra não cai no "teoricismo" e apresenta o que acontece no campo e na política brasileira em relação ao tópico.

Os governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva com suas políticas para a questão agrária são um destaque do livro.

Eduardo Scolese, o autor do livro, é repórter da sucursal da Folha em Brasília e cobra a questão agrária há anos.



"A Reforma Agrária"
Autor: Eduardo Scolese
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha



Introdução

Na tarde de 4 de fevereiro de 2003, pouco mais de um mês após Luiz Inácio Lula da Silva ter assumido a Presidência da República, um grupo de aproximadamente 400 sem-terra ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) bloqueou uma estrada no interior de Alagoas e manteve refém por cinco horas um secretário estadual de governo.

No dia seguinte à barricada, fotos nas primeiras páginas dos jornais mostraram tais sem-terra munidos de pedaços de pau, foices e facões, expondo um clima de tensão no campo deixado como herança por seguidos governos e que marcaria pelo menos os dois primeiros anos da gestão de Lula.

Entre os anos de 2002, o último de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, e 2003, o primeiro de Lula no Palácio do Planalto, o número de famílias sem terra acampadas1 à espera de um lote saltou de 60 mil para 200 mil; as invasões de terra avançaram de 103 para 222; e os assassinatos motivados por conflitos fundiários passaram de 20 para 42.

A reforma agrária no Brasil, muitas vezes anunciada, foi mais uma vez apontada como um compromisso de governo. Uma prioridade que, assim como na gestão FHC (1995-98 e 1999-2002), passou a caminhar a reboque das pressões dos movimentos e demais entidades do campo. Ou seja, tudo feito às pressas, deixando de lado um suposto planejamento qualitativo.

De um lado, a revolta dos fazendeiros com as seguidas invasões. E, de outro, a decepção dos sem-terra com as promessas não cumpridas e o acúmulo de famílias vivendo debaixo de barracos de lona. Algumas delas, aliás, acampadas pela falta de emprego nos centros urbanos, enquanto outras sendo usadas como instrumento de pressão dos movimentos sociais contra os governos estaduais e o governo federal.

No Brasil, a concentração fundiária (muita terra em nome de poucos proprietários) remonta à criação das capitanias hereditárias, no início da colonização portuguesa. A partir disso, o que se viu em relação à reforma agrária foram seguidas tentativas de realizá-la ou de impedi-la.

A realidade é que a demanda por terra no país tem permanecido acima da capacidade e da vontade de realização dos governos. No segundo mandato de FHC, pelo menos 800 mil famílias (cerca de 3,3 milhões de pessoas) preencheram fichas nos Correios para concorrer a um lote de terra. Em seus oito anos de governo, porém, pouco mais de 300 mil famílias foram assentadas.

O campo brasileiro, apesar de o país ter passado nas últimas décadas por mudanças sociais, políticas e econômicas, aparece num mesmo cenário explosivo, com os trabalhadores rurais se organizando em movimentos, entidades e sindicatos; os fazendeiros criando associações para defender seus interesses; e as leis, desde 1850, sendo aprovadas tanto para acelerar como para frear as políticas de reforma agrária.

No dia-a-dia do país, quase que de forma banalizada, tornaram-se rotina as invasões a fazendas e a prédios públicos, os saques de alimentos (principalmente no Nordeste), as barricadas nas estradas, os assassinatos de trabalhadores rurais e a conseqüente impunidade dos criminosos, a criação de milícias armadas de fazendeiros, o desrespeito à Constituição, a grilagem2 de terra e a manutenção de trabalhadores em regime análogo à escravidão, além do ritmo lento dos governos para a realização de uma necessária reforma agrária (ou seja, a distribuição de um pedaço de terra para milhares de pobres que nasceram e ainda vivem no campo). A seguir, em breves páginas, uma tentativa de resumir a origem, os desdobramentos e a conseqüência de tudo isso.

1 Tratar de acampamento de trabalhadores rurais, na prática, é falar em precariedade e falta de infra-estrutura básica, como água tratada, energia elétrica e rede de esgoto. Cada família recebe uma cesta básica a cada quatro meses, mais ou menos. Homens, mulheres e crianças vivem debaixo de barracos de lonas pretas, sob o sol do dia e o frio da noite, localizados, em sua maioria, à beira de estradas nordestinas. Só em Pernambuco havia cerca de 20 mil famílias nessas condições ao final de 2003, segundo o governo federal.
2 Grilagem é o processo de apropriação de terras públicas e alheias por meio da falsificação dos títulos de propriedade. A origem do termo é a seguinte: primeiro o fazendeiro falsificava a escritura de uma determinada área. Em seguida, para dar uma aparência antiga aos documentos, colocava a papelada em uma gaveta cheia de grilos. Corroída e amarelada por substâncias liberadas pelos insetos após cinco semanas, as escrituras pareciam autênticas.

27.8.07

Portugal é o primeiro país do mundo a ter jurisdição sobre uma área superior a 200 milhas náuticas

Alargamento da plataforma continental

Por: Teresa Firmino, jornal Público (Portugal)

Publicado a 05.08.07

Portugal voltou a desbravar o mar. Tornou-se o primeiro país a ter jurisdição sobre uma área para lá das 200 milhas náuticas, onde o mar é de todos. No novo pedacinho de Portugal, para os lados dos Açores, existem fontes de água quente, a 2300 metros de profundidade, onde a luz do sol nunca chega.



Para que quer um país um mundo destes? Porque, entre outras coisas, as fontes hidrotermais são oásis de vida marinha, alguma bem esquisita. Ela adaptou-se a condições extremas, como temperaturas elevadas e um ambiente tóxico, com enxofre, metais pesados, dióxido de carbono ou metano em excesso. Não depende da luz solar e da fotossíntese, mas da síntese que diversas espécies de bactérias fazem de elementos químicos oriundos das fontes hidrotermais, para obterem os nutrientes de que precisam. É nessas invulgares bactérias que assenta a cadeia alimentar: servem de refeição a outros seres vivos, que servem de refeição a outros...

Ao adaptarem-se às condições das fontes, bactérias e outros organismos podem ter desenvolvido moléculas úteis à medicina ou à indústria. Na biotecnologia, as fontes hidrotermais do mar profundo são vistas como um mundo admirável, de onde podem sair produtos industriais ou farmacêuticos surpreendentes.

Metade da cidade do Porto

"Rainbow" é o nome do novo pedaço de Portugal. Situa-se a 40 milhas do limite da zona económica exclusiva (ZEE) dos Açores. A ideia de proteger a riqueza biológica deste campo hidrotermal foi o início de uma história de conquista, em versão pacífica.

Portugal começou por propor, em Outubro de 2006, que o Rainbow fosse uma área protegida sob jurisdição portuguesa, no âmbito da Convenção para a Protecção do Ambiente Marinho no Atlântico Nordeste (OSPAR).

Para esta candidatura, entrou em cena a equipa da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), incumbida pelo Governo de provar pela ciência, até 2009, que a parte continental do território português se prolonga mar adentro para lá das 200 milhas da costa (370 quilómetros). Se o provar, Portugal pode esticar-se — mas só pelo leito e subsolo do mar, como estabelece a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), em vigor desde 1994.

Mas a EMEPC quis apressar as coisas. Defendeu que o Rainbow fosse já reconhecido, formalmente, como parte da plataforma continental portuguesa, com base na informação científica disponível. "Portugal podia, e devia, exercer sobre ele os direitos previstos na CNUDM — ou seja, direitos de soberania sobre a plataforma continental para exploração e aproveitamento dos recursos naturais", refere uma nota de imprensa.

O sim veio no final de Junho, numa reunião dos Estados-membros da OSPAR na Bélgica. Consideraram o Rainbow como área marinha protegida ao abrigo daquela convenção regional e referiram "claramente" que está na "plataforma continental portuguesa alargada, ou seja, dentro da jurisdição nacional", diz a nota.

O novo bocado de chão português tem 2215 hectares: uns 4000 campos de futebol ou cerca de metade da cidade do Porto. Simbólico, mas talvez prenúncio de um país que vai crescer muito mais. Assim o espera Manuel Pinto de Abreu, o engenheiro hidrógrafo e oceanógrafo físico que chefia a EMEPC. Desde meados de 2005 que a sua equipa trabalha para alargar o fundo do mar português.

Até à ZEE, os países têm direito de explorar o que se encontrar na coluna de água e no fundo do mar. Transpor essa "fronteira", embora já só para o fundo do mar, dá trabalho.

Os cientistas têm de reunir uma imensidão de dados (geológicos, geofísicos, hidrográficos...) que provem que a plataforma continental dos seus territórios se prolonga, realmente, para lá das 200 milhas. Portanto, têm de saber onde os fundos marinhos deixam de ter características continentais e já têm características oceânicas. Para encontrar essa transição, usam-se como pistas a morfologia do fundo (um declive acentuado) e a geologia (o fim da continuidade dos materiais geológicos entre a parte emersa e a submersa). O problema, nalguns casos, é que esse limite não é óbvio.

O continente vezes 15?

Portugal, ilhas incluídas, tem 92.083 quilómetros quadrados e uma ZEE de 1,6 milhões de quilómetros quadrados. Até agora, os dados científicos indicam que Portugal poderá alargar-se em cerca de 240 mil quilómetros quadrados, em redor da ZEE do continente e da Madeira, diz Pinto de Abreu. Tirando os 4000 campos de futebol do Rainbow, os Açores ainda não entram nas contas, porque os levantamentos oceanográficos começaram agora. Está lá o navio Almirante Gago Coutinho e, em Setembro, seguirá o D. Carlos I.

No cenário optimista, o fundo do mar português poderá alargar-se em 1,3 milhões de quilómetros quadrados — o que é 14,9 vezes a área de Portugal continental. O cenário menos favorável é o dos 240 mil quilómetros quadrados já prospectados (2,6 vezes a área continental).

Agora, os cientistas correm contra o tempo, um esforço que custará, incluindo missões de navios, 15 milhões de euros. Até 13 de Maio de 2009, o processo de extensão da plataforma tem de estar concluído e toda a documentação tem de ser entregue na Comissão de Limites da Plataforma Continental. Se as suas recomendações forem favoráveis, Portugal poderá então exercer o acto de soberania que é fixar os limites do país. Que surpresas reservarão essas novas parcelas às gerações actuais e futuras? Petróleo? Gás? Metais? Recursos genéticos, de fontes hidrotermais ou não?"

Há quem diga que a plataforma continental é o novo Tratado de Tordesilhas para Portugal, tal a vastidão da área que pode ficar sob jurisdição nacional. Na União Europeia, Portugal já tem a maior ZEE. Com o alargamento da plataforma, passará a ser dos países com maior jurisdição marítima do mundo", diz o jurista Tiago Pitta e Cunha, que coordenou a estratégia portuguesa para os oceanos.

Quando se pergunta qual o significado do Rainbow, Pinto de Abreu sublinha: "É o reconhecimento da jurisdição nacional nessa área, sem sequer termos concluído o processo de extensão da plataforma."

O passo seguinte no Rainbow é gerir e regular a investigação e exploração dos recursos. Se os cientistas de outros países quiserem lá ir, têm de comunicar a Portugal. "É normal que partilhem parte do material recolhido", diz Pinto de Abreu. "Quando há um limite traçado, há uma barreira que geralmente é respeitada."

A incógnita, agora, é saber onde haverá mais bandeiras com as cores portuguesas no chão do Atlântico.